domingo, 24 de junho de 2012

Replay


Imagine que tenho uma mala muito pesada com um milhão de moedas de ouro. As alças ficam penduradas no meu pescoço, me forçando a cabeça pra baixo, retesando os músculos do olhar pra frente.
Vez ou outra, uma pessoa da rua passa e tenta me roubar. Mas, por mais que esteja tão pesado e doendo e estragando a minha coluna, luto até a morte pra proteger a tal da mala. Automaticamente me atiro contra o chão, como se protegesse um filho das balas. São terríveis esses quilos centralizados no ponto mais fraco do meu corpo, mas pra violência a gente não entrega nem os fardos.
Dai, também, às vezes, uma pessoa da rua se oferece pra carregar a mala pra mim. Ou pra guardar em sua casa. Ou pra dividir o peso ao estilo “uma mão em cada alça”. Também não consigo entregar meu arqueamento e tamanho para essas pessoas. O amor gentil nunca me conquistou. Gentileza é coisa pra quem nunca será íntimo. Solidariedade é coisa pra campanha política. Felicidade é pra quem se conforma em ficar num lugar só porque está bom.
Mas muito de vez em quando, como aconteceu com a gente, aparece uma pessoa que não me pede nada e pra quem eu tenho vontade de entregar cada moeda da minha mala com um milhão de moedas de ouro. Tome, leve, gaste, use, encha a sua banheira com elas e depois me mande uma foto.
Eu sou uma mendiga ao contrario. Eu ando pelo mundo implorando pra que alguém aceite a minha riqueza. Fico sentada no chão, tocando meu instrumento, com um chapéu imenso e lotado. E a plaquinha “por favor, não me ajude”. Muitas pessoas passam, mas pra poucas me levanto.
Posso ficar horas tentando te explicar. Você tem um resto perdido e solitário de sobrancelha ao lado da sobrancelha esquerda. Você tem pequenos buracos entre os dentes de baixo. Você molha o lábio com a língua ainda mais seca que seus lábios, quando está nervoso. Você joga seu maxilar inferior pra frente quando a risada é de deboche. Você joga o seu maxilar superior pra frente quando a risada é de timidez.
Você atravessou a rua com as mãos congeladas dentro do bolso. Você pede perdão pela sua parte playboy com a doçura e a sinceridade de um poeta descalço. Você me convida pra almoçar no restaurante onde terminamos e, porque sabe ser piadista exatamente do jeito que combina comigo, explica detalhadamente onde é o lugar como se eu não lembrasse dele todos os dias.
Eu vejo a palavra “reply” no meu celular e, só porque tem a letra “y”, a letra mais forte do seu sobrenome, sinto de leve um chutinho atrás dos meus joelhos. Eu poderia ficar horas te explicando por que eu acho que é amor.
Você outro dia fez o exercício contrário. Ficou tentando me explicar por que não é amor. Falou da minha amargura verborrágica, das minhas fases com remédios que causam anorgasmia, do quanto odiava quando eu tentava extrair mais e mais e mais do seu peito protegido pelas várias jaquetinhas modernas que parecem paletozinhos mas têm zíper e, por fim, disse que apesar de não simpatizar com elas, prefere as meninas que te fazem sentir de férias em um spa relaxante.
Não são por essas coisas que não se ama. Não são por essas coisas que se ama. Essas são apenas as coisas sobre as quais conseguimos falar na nossa ânsia de ocupar a cabeça enquanto nos encaramos um pouco assustados.
A verdade é que, no meio da multidão, estamos carregando nossas malas pesadas de riquezas e belezas e sentimentos. E uma hora, só porque acontece e não se pode explicar sem parecer ingênuo e arrogante, escolhemos uma pessoa que nos leve.
Eu sei que é amor porque eu te escolhi pra me levar e, mesmo você não tendo aceitado, eu fui.
Eu te vi atravessando a rua com as mãos frias dentro da “jaquetinha paletó que tem zíper” e fui lançada sem tempo de pena. Você não sabe, você não vê, você não quer, você não se importa. Mas, no último segundo do sinal fechado, eu abri a janela do meu carro e joguei a mala com milhões de moedas de ouro.
A mala não te atingiu, caiu meio metro antes do seu último passo. Nem o som do meu peito desmoronado, nem o cheiro do meu amor metalizado, nem a luz da minha devoção dourada. A mala espatifou no meio da avenida caótica pela chuva e pela véspera do feriado. Os famintos, os entediados, os pobre-ninguéns, os todos-os-outros, se engalfinharam pra tirar proveito do amor que, lançado ao homem sem mãos aparentes, agora ficou esparramado, exposto e restante no asfalto, como um resto de feira reluzente.
Tati Bernardi
(Quando não souber descrever o que sentes, busque alguém que tenha sentido o mesmo.)

terça-feira, 1 de maio de 2012

Ilusões


 
Eu estou bem assim, afirmo.
Eu sou muito feliz assim! Retifico.
Embora parte de mim prefira outra forma do meu ser
Àquela forma que eu só fui com você...
Infinidade de pensamentos
Quinhentas ilusões e uma só realidade
Nem sempre triste, mas muito real está tal realidade.
Às vezes o imaginário é o local mais seguro
Sempre inerte, o expert em fazer do ‘tudo errado’ o perfeito...
E do que falta o completo.
Tão amargo mistério, e tão doce ilusão
Do vazio que deixastes das tais grandes emoções.
Pudera eu querer mudar!
Quisera eu tais mudanças desejar.
Inquieta sempre, mas é a constância que move
Deste vazio, se existir, preencher sendo forte.
Forte, disse eu? Ah mentiras...
Mais ilusões...
Aquieta-te alma, silencia coração!
Mais vale um calar na hora certa do que a certeza do que é só ilusão. 

 J.H. da Rocha

quarta-feira, 4 de abril de 2012

O sussurrar das lembranças



Há momentos que nenhuma palavra consegue descrever o que se sente
Há sensações que jamais serão descritas
Há segredos que nunca serão revelados
Há dúvidas que jamais serão respondidas
A relação entre  o passado e o porvir, fino e resistente...
Óh deveras as lembranças são momentos intangíveis!
Pudera eu, retornar fatos tão marcantes...
Há momentos que são eternalizados por sua essência
Óh quão doce são as sensações sinceras!
Quão puro é o amor!
Ou era...
Ah se tudo fosse perfeito... Devo enternecer minha alma
Aquieta-te! Sossega coração!
Óh quão doce é o silêncio, e tão amargo é o seu ecoar
Calaram minhas palavras,
Calaram-se as palavras escritas
Aquele fel do seu sussurrar jamais será revelado.

Julie Hellen

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Perfil

Eu tenho dentro de mim um furacão de anseios, desejos e dúvidas.
Calo-me dia após dia, pois quanto mais procuro entender, menos eu sei a meu respeito.
Sou como um misto de silêncio e tempestade
Quão enganosa eu sou, tentando me persuadir, figura cômica e louca
Digo-lhes a verdade, escondendo isto de mim, sou um furacão, feito de idéias e opiniões, vivências e ilusões, tentando conter-se na forma de brisa da tarde.
Ah que vontade insana de ter mil vidas
Viveria cada uma de forma diferente!
Como consigo apreciar coisas tão variadas?
Há quem diga ser impossível dividir seu apreço por coisas opostas
Mas é o tudo diferente que me faz querer ambos.
Cansei de tentar, sem desejar realizar, descrever o meu ser
Sempre que acredito conhecer sou surpreendida por novas concepções
E penso, transformo, faço e me refaço
Jamais desejei ser tão intensa, e ser tão inerte...
Amar muitos, e ao fim parecer não amar a ninguém.
Oh quão doce poderia ser o meu ser
Mas sou doce, deveras, e quão amargo é o meu pensar
Tenho alma de um mar sereno e claro, que azul celestial aparenta ser
Quão traiçoeiro, é sem querer
Meu mar de alma... Que exacerbada tendência de afogar todos que por ti tentam navegar
Quão doce poderia ser...
O gosto de não conseguir se expressar é azedo
Por que a vida não pode ser vivida de forma escrita?
Retiremos a obrigação da oralidade!
Com certeza assim, ou talvez, eu seria melhor compreendida.

J.H. Rocha


segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Pensando e vivendo: "Ai está você!"

Pensando e vivendo: "Ai está você!": Estes dias eu li o seguinte trecho em um livro (Sem medo de viver- Max Lucado): "No filme Hook - A volta do capitão Gancho, Peter P...

"Ai está você!"

       
  Estes dias eu li o seguinte trecho em um livro (Sem medo de viver- Max Lucado):
"No filme Hook - A volta do capitão Gancho, Peter Pan tinha crescido, envelhecido e engordado, e não se parecia nem um pouco com o Peter que os meninos perdidos conheciam. Enquanto os meninos gritavam que esse não era o Peter, um dos meninos menores o pegou pela mão e puxou até seu nível. Então colocou suas mãos no rosto de Peter e começou a mexer em sua pele, dando nova forma ao seu rosto. O garoto olhou nos olhos de Peter e disse: 'Ai está você, Peter!'."

Como uma simples descrição de cena me fez chorar, orar e refletir sobre as situações da vida me fizeram mudar, e não me refiro à forma física. Então pensei: Será que me transformei em alguém da qual eu jamais imaginei ser, ou pior, que eu jamais havia desejado ser um dia?

         Às vezes projetamos tantas coisas, fazemos tantos planos e baseamo-los em coisas que não nos darão fundamento algum. Quando a base não é firme toda a estrutura fica comprometida.

           E você, já se olhou no espelho e realmente parou para enxergar além do que você costuma? Reparar em cada traço do seu rosto que mudou, as marcas de expressões, que podem ser oriundas de sorrisos ou caretas, de testas franzidas ou bicos. E toda expressão foi acompanhada de sentimentos, relacionamentos, histórias...
Já olhou para dentro de você mesmo e perguntou: Como eu estou? O que eu aprendi até aqui? Eu ainda luto por meus sonhos?

     Por muitas vezes deixamos a vida nos levar, e apenas isso. Corremos tanto para alcançar desejos, que no fundo se perdem neles mesmos, e abrimos mão dos sonhos. E por vezes abrimos mão do que realmente somos.
   Há mudanças que são tão inesperadas e que te fazem se perder no turbilhão de conflitos e incertezas, mas estas mudanças trazem ventos impetuosos que podem transformar um deserto num oásis. É o que chamamos de milagre!
     Existem coisas na vida que só conseguimos obter através de experiências, e na maioria das vezes não são agradáveis ou desejáveis, e ouso dizer que jamais planejadas. Contudo, por mais que possam doer, elas trazem um crescimento tão grande que ao fim de tudo você se vê mais apto a viver de maneira plena, livre, consciente e feliz. É o sentido daquele velho clichê: "Dar valor as coisas simples."

Acho que depois de algumas reflexões você irá dizer:"Ai estou eu!" 
Todos têm problemas, enfrentamos grandes tempestades, que podem machucar ou gerar novos hábitos, deixar cicatrizes, roubar sorrisos, mas jamais devemos perder o nosso brilho.
E como costumo dizer 'A vida é curta demais', não se perca na sua própria vida. Encontre-se!

E que ao final de todos os dias possamos nos olhar e realmente enxergar o que somos, o que sonhamos e pelo que vivemos.
"Tenha bom ânimo, filho; os seus pecados estão perdoados." Mateus 9.2

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Quando tudo traz um cansaço...


            Às vezes eu tenho a sensação que nada muda, de que por mais que eu lute e me esforce, as coisas permanecem do mesmo jeito. Então é quando paro, respiro fundo e digo "cansei", é assim que desisto...


Eu já desisti de muitas coisas na minha vida, não me considero uma pessoa persistente, que saiba conviver com a dor. Pois se algo me faz mal e eu insistir em lutar para mudar o quadro, sei que não lutarei por muito tempo, pois me considero fraca e propensa a desistência. Um péssimo defeito...

É que em minha visão imediatista tenho que minha persistência só me trará mais frustração.
Há momentos em que só consigo pensar no quanto as situações me cansam:
"Tô cansada de mim... Tô cansada de tanta confusão... Tô cansada de indecisões... Tô cansada de dar murro em ponta de faca... Tô cansada do egoísmo das pessoas... Tô cansada do povo orgulhoso... Tô cansada da minha fraqueza... Tô cansada dos meus sentimentos... Tô cansada do meu passado... Tô cansada do presente... Tô cansada de ficar tentando me superar pela cobrança das pessoas que só sabem falar e nada fazem... Tô cansada de ouvir e concordar com tudo... Tô cansada de estar certa... Tô cansada de estar errada... Tô cansada de lidar com crianças... Tô cansada de lidar com adultos... Tô cansada dos meus pensamentos... Tô cansada dos meus sonhos... Tô cansada das minhas expectativas... Tô cansada das frustrações... Tô cansada dos meus pensamentos... Tô cansada dos meus sonhos... Tô cansada de ficar magoada... Tô cansada de perdoar... Tô cansada de me importar com tudo e de ter que ignorar tudo... Tô cansada de só ler... Tô cansada de só ter que escrever... Tô cansada de ficar na internet... Tô cansada de ter que ficar sem internet... Tô cansada de ser preguiçosa... Tô cansada de fazer tudo ao mesmo tempo..."
Não sei se sou a única pessoa que se cansa de tudo um dia. E com certeza se torna a pessoa mais chata do mundo! rs

É no Dia do Cansaço que nada irá te agradar... Porque quando nos frustramos é como se todo o seu esforço fosse em vão, isso traz desesperança, tira o brilho das outras conquistas (passadas ou futuras), mas só acontece por um momento.
E mesmo no momento de desesperança é necessário escolher quais serão os meus próximos passos, mesmo querendo ficar apenas de 'olhos fechados' por uma infinidade de tempo.

Cada um só entende o seu próprio Dia do Cansaço. Somos muito compreensivos conosco e jamais com os outros. Todos têm o direito de sentir cansaço de muitas coisas, o que não significa que desistirão.
Nem todos possuem o meu defeito. E isso é maravilhoso!!
O problema ocorre quando há um apego àquele momento... O que acarreta em um apego à dor, e seus próximos passos serão de retrocesso e lamento.
      Diferente de quando assumimos que fora apenas uma fraqueza, um ato inconsciente de ingratidão e mimo por não termos o que desejamos na hora em que desejamos.


É saber que por àquele dia, e apenas pelo momento, muitas coisas te cansam, mas que depois do seu 'surto' você irá continuar lutando. Afinal, pelo que realmente importa é necessário lutar e vencer!
Eu ainda estou aprendendo sobre como lidar com meu cansaço, em que medida devo desistir ou insistir. E eu conto com uma voz suave como brisa, que me ajuda a não desistir de evitar desistir, entendeu? rs
“... sabendo que a tribulação produz a paciência, a paciência a experiência, e a experiência a esperança."

Tenha o seu Dia do Cansaço, mas nesse dia não decida nada em sua vida. Apenas feche os olhos e traga à memória àquilo que lhe dá esperança.
E ao abrir seus olhos, sorria e siga em frente... 
A vida é curta demais para meros cansaços.


"Pensem bem naquele que suportou tal oposição dos pecadores contra si mesmo, para que vocês não se cansem nem se desanimem."
Hebreus 12. 3